O problema da hipocrisia constitui um relevante elemento a ser considerado nas reflexões sobre a natureza do poder político. Contudo, este problema tem sido negligenciado nas análises políticas. De um lado, por razões metodológicas. Estudar hipocrisia significa penetrar no terreno difícil e espinhoso do que é omitido, dissimulado, escondido e negado. Embora as pessoas, em geral, reconheçam a forte presença da hipocrisia na vida social e política, este reconhecimento é sempre exteriorizado: na fala do sujeito, as atitudes hipócritas fazem parte do mundo dos outros.
É próprio da atitude hipócrita mentir duas vezes: mentir por ser hipócrita e mentir por não poder ser publicamente vista como hipócrita. As intenções conscientes e as versões dos acontecimentos afirmadas explicitamente pelo agente são produto de um permanente trabalho de racionalização, através do qual ele busca tornar aceitável para si e para os demais atos que são considerados inaceitáveis de acordo com os valores morais que ele mesmo afirma publicamente.
De outro lado, o modo como grande parte dos analistas, filósofos e cientistas políticos concebem o mundo político conduz à percepção deste objeto como











